“O Viés Otimista”, de um trader

Jefferson LaatusJefferson Laatus
Trader profissional e sócio fundador do Grupo LAATUS

Estou lendo “O Viés Otimista”, livro que ganhei de um aluno e que me deixou curioso. Comecei a leitura por não me achar o mais otimista das pessoas e por um momento, me senti desconfortável em relação ao meu perfil. Costumo ser atento a tudo, me preocupar, levar o universo em conta. Isso não é exatamente um elogio a mim mesmo, acreditem. Costumo levar tudo em consideração.

Então entender o que faz das pessoas otimistas, a arte de libertar-se das preocupações e dos efeitos das situações nas pessoas, e até a forma como palavras, ações ou situações me atingem e refletem em mim, por vezes me instigou.

“O Viés Otimista”: Segundo a autora, uma neurocientista israelense, o otimismo é uma ilusão cognitiva. A maioria de nós, 80% temos este viés. É nossa tendência como seres humanos superestimarmos a probabilidade de vivenciar bons eventos em nossa vida e em paralelo, subestimarmos a probabilidade de vivenciar eventos ruins. Subestimamos então a probabilidade de sofrer de câncer, de estar em um acidente de carro, de perder dinheiro, mas superestimamos nossa longevidade, nossas perspectivas de sucesso, de plenitude.

Resumindo, somos mais otimistas que realistas, mas nos esquecemos deste fato. O mercado financeiro no Brasil por exemplo: Segundo uma pesquisa recente realizada por empresa renomada, as taxas de insucesso são de 90%. O que significa que de cada 10 autônomos, 9 deixarão a profissão no período de 1 ano. Mas quando se pergunta aos candidatos a traders sobre a probabilidade de eles saírem do mercado antes do previsto, eles calculam que a chance é de 0%. Pelo menos a chance dele próprio sair do mercado é de 0%. Somos otimistas quanto a nós mesmos, mas não somos tão otimistas sobre o cara que trabalha ao nosso lado… E somos um tanto pessimistas quanto aos nossos políticos, nossos concorrentes, nosso país, nossos jovens…. Mas o otimismo particular quanto ao nosso futuro pessoal, ainda permanece.

Mas afinal, ser otimista é bom ou ruim? Fui lendo o livro, evoluí no raciocínio da autora. O legal da leitura, aliás, é isso. A gente lê a perspectiva do outro, vê o que cabe onde, o que faz sentido para a gente, e o que não cabe, descartamos. Infelizmente, descartamos!!!!

Bom, dentre coisas sensacionais citadas pela escritora neurocientista, uma me chamou muito a atenção: otimistas esperam mais coisas positivas da vida e essa antecipação dos fatos eleva a sensação de bem-estar. No entanto, embora o otimismo traga muitos benefícios (como redução de estresse e ansiedade), em demasia, exacerbado, altera a realidade das coisas.

Ninguém começa uma profissão nova pensando em não dar certo. Ninguém entra em uma faculdade esperando não concluir o curso, não se formar. Todo mundo quer ter sucesso. Somos 8 bilhões de pessoas no planeta, das quais 80% tem viés positivo! Todo mundo quer dar certo na vida.

Todo trader quer ter sucesso.

O que é sucesso?

Essa é uma pergunta ampla e sem comprometimento algum. Tenho certeza que muitas coisas te fariam feliz e você poderia passar uma tarde falando delas, do seu sucesso. Ter uma vida plena, sem problemas financeiros, com um amor tranquilo e com saúde de sobra, para mim e para a minha família, cercado de amigos verdadeiros e exercendo o trabalho que eu amo e acredito, seria uma resposta minha. Mas ampla.

Poderia dizer que conseguir pedalar diariamente de novo, meu exercício favorito, viajar duas vezes por ano para conhecer o mundo, ter tempo para acompanhar o crescimento dos meus filhos e contar com uma remuneração confortável para realizar tudo isso, fruto do trabalho que eu amo fazer, seria especificar um pouco mais. Mesmo assim, seria genérico. Pois cada uma dessas coisas, para acontecerem, precisam de força, de energia, de dedicação, e quando olho para todas de uma vez só, me dou conta que para “dar conta” de tudo eu teria que performar como um super-herói, ou viver mais 3 vidas.

Não estou falando aqui de gestão do tempo, estou falando de prioridades, de escolhas. As quais realmente movimentariam minha ação e o meu coração em direção ao que realmente me satisfaz na vida. Pelas quais eu faria qualquer coisa. Valeria qualquer esforço. E se olhar tudo o que citei acima, de uma forma ampla, não daria o sangue por todas, pois nem todas tem o mesmo valor. Mexeria com facilidade em variáveis ali. E isso é, de repente, um alívio.

Não sou o dono da verdade. Dito isso, não desejo ser referência em absolutamente nada, nem de sucesso e felicidade, nem de fracasso. Isso seria egocêntrico e vaidoso da minha parte afinal, também estou na luta, sempre! Minhas histórias e pontos de vista são profundamente verdadeiras, frutos das minhas vivências, cheias de fins e recomeços.

Me dirigem a escolhas que funcionam as vezes (pelo menos para mim), e em outras só ensinam o caminho a não pegar. E por isso abrem uma conversa, que eu acredito ser o ambiente de reflexão e consideração mais democrático.

Então eu pergunto: por que é que quando nossas EXPECTATIVAS NÃO SÃO CUMPRIDAS temos dificuldades de alterar nossas crenças?

Talvez, ou certamente, pelo tal do viés do otimismo…. Da tendência a superestimar o que pode ser bom, esquecendo de que os números ruins também dizem respeito a nós! Isso significa que sinais de alerta como pesquisas, experiências contadas por pessoas que estão há mais tempo na jornada, notícias ruins corriqueiramente podem ter apenas um impacto limitado.

Algo nos impede de aceitar esses sinais de alerta de forma pessoal. No entanto, quando ouvimos que podemos ter mais dinheiro, mais tempo, mais tudo pensamos: puxa, é isso que me fará feliz!

Pois bem, a pergunta certa seria: sem o que você não toleraria viver? Pelo que suportaria a dor e a frustração em nome de tê-la como realidade? O que te movimentaria todos os dias, te faria aprender, desaprender e reaprender quantas vezes fosse necessário? O que faz com que a tua existência faça sentido? 

Pois então. Não seria mais honesto, mais generoso com a gente mesmo e mais próximo à felicidade real? Não seria uma jornada mais gostosa de fazer, quando o objetivo é tão parte da gente?

Sabe aquela história de operar da praia, ter carro de luxo, casa com piscina, viajar sem destino, rasgar dinheiro? Amigo, se você não aprender a reagir as más notícias, você estará constantemente fugindo da realidade!

Acho o otimismo essencial! Porque se você acreditar que não pode, você certamente nunca poderá. Porque para obter qualquer tipo de progresso, precisamos conseguir imaginar uma realidade diferente e então precisamos acreditar que essa realidade é possível.

No entanto, otimismo irreal nos coloca em ciladas as vezes (talvez muitas vezes) e seria muito insensato de nossa parte ignorá-las. Pode levar a comportamentos arriscados, ao colapso financeiro, ao planejamento falho. Nos leva a subestimar os custos e as durações dos projetos. TODO PROJETO TEM UM CUSTO DE APRENDIZADO E UM TEMPO DE MATURAÇÃO. FATO! Gostem ou não.

A chave aqui é realmente o conhecimento. Não nascemos como uma compreensão inata de nossas tendências. Compreender que o otimismo também nos coloca em ciladas, não faz com que as ilusões boas desapareçam. E isso é bom porque significa que devemos ser capazes de encontrar o equilíbrio para apresentar planos e regras para nos proteger do otimismo irreal, e ao mesmo tempo permanecermos esperançosos.

Ser trader para você, conversa de fato com o que você acredita? Pode tolerar? Te faz bem e feliz? E se não se trata só de você, consegue ampliar seu olhar e pensar no que é também importante para o outro e assim, sair do meu umbigo? Porque é disso que se trata o meu trabalho.

Meus desejos reais, minhas motivações, ou pelo que eu faria qualquer coisa na vida. Pelo que eu lutaria incansavelmente ou com uma resistência de dar inveja.

Quem escreve aqui, é o cara que um dia sonhou em ser ciclista profissional e não foi. Era duro e não estava disponível para treinos sete dias por semana. O cara que sonhava que teria um emprego estável em TI e sua felicidade estaria garantida e assim teria tudo da vida. E descobriu que dinheiro nenhum paga saúde mental de um indivíduo. Um cara maduro, casado com uma família pronta, pai de três filhos e que sonhava então estar centrado com a sua alma, exatamente onde seus pés tocam o chão. No mesmo lugar onde se encontrava em si. E vem vindo assim… Graças a Deus!

A Dra. Tali Sharot (autora) diz que preferimos fingir não entender sobre temas que incomodam nossas crenças. FINGIMOS, porque no fundo entendemos. Mas preferimos abraçar as informações e conselhos daqueles que “confirmam” nossas expectativas otimistas e não daqueles que causam desconforto. Eu não tenho intenção alguma de romantizar o que é ser trader.

Como trader profissional, que trabalha muito e de dentro de um escritório (não da praia ou de alguma estação de esqui), que passa o dia se atualizando sobre política, economia, macroeconomia, geopolítica, que tem uma rotina como qualquer profissional que busca excelência em sua profissão, sem tempo a perder com bobagens, eu afirmo a você:

Se você for um trader otimista, o “pinguim que acredita que pode voar”, mas que acopla um paraquedas as costas, para o caso das coisas não acontecerem exatamente do modo como tenha planejado, você voará como uma águia, mesmo que você seja apenas um pinguim.

Agora, se você preferir ser o trader extremamente otimista, o pinguim que salta no despenhadeiro às cegas esperando pelo melhor, você acabará estraçalhado quando atingir o chão!

E não diga que ninguém avisou!

Leia também
Siga-nos!
Instagram
YouTube
Telegram
SoundCloud
LinkedIn
Pinterest
Baixe nosso app e abra sua conta no Banco Digital dos Investidores, gratuitamente!

Leia também:

Menu